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"Existo, logo penso". Friedrich Nietzsche

19 de jun de 2010

MORAL E MANIPULAÇÃO

Os tiranos da época de Platão, do ponto de vista moral, não eram muito distintos dos que viveram e vivem na modernidade. Estes seriam capazes de construir situações onde se pudesse fazer o pior possível, e depois tentar conseguir que o feito desaparecesse completamente, que o passado fosse esquecido.
Luís Carlos Lopes*
Nos escritos de Platão, na antiguidade clássica, já são encontráveis referências a um procedimento moral que ainda hoje atormenta a todos que preferem pensar em um mundo melhor e em uma humanidade com as melhores qualidades possíveis. O célebre filósofo referiu-se ao modus operandi de alguns com poder de falar e de fazer. Estes seriam capazes de construir situações onde se pudesse fazer o pior possível, e depois tentar conseguir que o feito desaparecesse completamente, que o passado fosse esquecido, apagado, deixado para trás, como se não tivesse acontecido. O que se descortinou foi a maneira usada para enganar e manipular, procedendo de uma forma e jurando que se estava se fazendo exatamente o oposto.

Tiranos, prepostos e outros canalhas justificariam os seus crimes, buscando limpar todas as evidências do que fizeram. As marcas que não conseguissem extirpar, eles tentariam ocultar para sempre, buscando toda e qualquer justificativa para tal. Eles se apoiariam na idéia do bem comum, na segurança da pátria e da sociedade, na lei, na ordem, etc. O bem comum, na verdade, seria o que interessaria a um pequeno grupo. A segurança, um disfarce para esconder que o queriam vender sem atropelos. A lei justa seria a escrita por eles, porque todas as que antes existiam, precisariam ser revogadas. A ordem, bem, a ordem consistiria a que eles definissem como justa.

Neste reenquadramento do real, eles desfocariam os conceitos, aplicando-os em comentários e argumentos que se beneficiariam de vários fatores. A passagem de pelo menos uma geração ajudaria bastante. Falar para quem não viveu uma época seria sempre bem mais fácil ao ato de manipular consciências. Acusar os acusadores, um expediente muito útil que objetiva desqualificar a acusação. No fundo, o que eles gostariam mesmo é de poder também transformar em desaparecidos os fatos em que participaram. Os tiranos da época de Platão, do ponto de vista moral, não eram muito distintos dos que viveram e vivem na modernidade.

O que Platão não poderia saber é que 2.500 anos após suas palavras, este procedimento continuaria vivo e amplamente utilizado. Isto é aplicável aos casos rumorosos da ação governamental, bem como aos que se repetem no cotidiano da vida pública, nas relações estabelecidas entre as pessoas que estão associadas em alguma atividade, onde o imperativo moral seja significativo. Só os ingênuos não percebem ou não querem perceber a tentativa de se esconder o que se fez, conscientemente, na busca de fazer valer pela força e outros tipos de opressão, o que não se poderia conseguir por meio de uma argumentação racional.

Sócrates, pela pena de Platão, acreditava que não havia felicidade possível para quem assim procedesse. Os tiranos e seus prepostos poderiam simulá-la, mas carregariam os ossos e os fatos nos seus armários para sempre. Pessoas, grupos, instituições e países só poderiam viver melhor se estes armários fossem abertos, limpos e seus conteúdos fossem claramente mostrados para todos. Caso contrário, o exercício de simulação custaria caro aos simuladores, bem como às suas vítimas. O filósofo, descrito pelo seu maior discípulo, não acreditava que a tirania, mesmo bem sucedida, fosse eterna e nem que seus adeptos pudessem esconder os seus crimes definitivamente.

Tudo isto apavora quem tem o que esconder. O procedimento de origem se desdobra em mil e um expedientes para impedir ou jogar para frente o que será inevitável. Quanto maior o tamanho do crime, mais difícil é impedir que ele seja desnudado. Pode demorar, mas fatalmente isto ocorrerá. O melhor seria é que se seguissem os conselhos dos que pensaram a natureza humana baseada na paz com seus semelhantes. Esta, obtida pela prática da justiça efetiva e não em sua caricatura formal.

(*) Luís Carlos Lopes é professor.

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