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26 de mai de 2010

O COMPORTAMENTO IMPLÍCITO E INCONSCIENTE EFETIVADO NA FORMAÇÃO PM

A formação PM II - TC Maroja
Alcebiades Maroja • Belém (PA

O COMPORTAMENTO IMPLÍCITO E INCONSCIENTE EFETIVADO NA FORMAÇÃO PM

Este estudo foi publicado na pós graduação efetuada na UFES _ES

A forma de tratamento dispensado aos futuros oficiais militares parece que denuncia a base de uma má formação acadêmica e posteriormente profissional. Podemos constatar, baseados nos resultados acima, que 70% dos alunos estão insatisfeitos com o modo de crítica existentes nos quartéis e outras instâncias interligadas. Para que possamos compreender mais claramente as formas de insatisfação dos alunos, poderemos, então, comparar esse resultado com algumas frases respondidas pelos alunos. Mais de 15% dos alunos citaram a seguinte frase: “Manda quem pode, obedece quem tem juízo”. A seguir, temos: “Aluno é bicho, imagem do cão, monstro, louco, maluco!”. De forma mais marcante, outros alunos repetiram que: “Você não é pago para pensar, e sim para executar.”


Após esses exemplos não nos restam dúvidas no que diz respeito ao caráter ultrapassado, repetido e autoritário que dominam ainda hoje os centros de formação militares. Apenas para concretizarmos o nosso pensamento, encerramos essa primeira discussão com a seguinte frase citada: “... é bom porque é ruim. Se fosse pior, seria melhor. (...) Nada é tão ruim que não possa piorar...” Talvez nos resta uma pergunta: Será que o militar, que também passou pela mesma formação, é capaz de determinar com certidão o que é bom e para quem é bom? Ou ainda: Será que o caráter negativo da formação é tão eficaz a ponto de transformar ‘bichos e loucos’ em militares e oficiais ‘melhores’?


Partindo para o segundo questionamento observamos que a alienação dos alunos (e futuros profissionais) já é claramente visível. Enquanto que na primeira pergunta a insatisfação predomina, notamos que quando sintetizamos a ausência pressentida de direito numa única frase, a situação se modifica. Partindo para uma análise mais apurada, aliada às explicações anteriores à aplicação dos questionários, percebemos que a maioria dos alunos (64%) acha que ainda podem reivindicar os seus direitos enquanto militares. No entanto se formos conferir algumas frases que se relacionam com esse aspecto salientado, encontraremos justamente o oposto: “O soldado não tem direitos, apenas deveres”. Se acharmos que essa citação é direta demais, poderemos nos satisfazer com outra — “Ouvir e obedecer”.


Trazendo o debate para o plano social, o questionamento sobre o tratamento diferenciado destinado aos militares, em relação à sociedade civil, parece que, inevitavelmente, acarreta deturpações no plano mental de muitos desses profissionais militares na medida em que a ausência de direitos implica em torná-lo inferior àquele pelo qual esse mesmo profissional busca proteger e defender os seus direitos básicos. De igual forma o respeito aos direitos dos cidadãos – que, desse modo tornam-se alheios a ele – parece não ter mais sentido. Se não possuem direitos, como conceder direitos a outrem. Ou então, podem não mais acreditar nos “direitos humanos”, haja vista esses direitos não se apresentarem a eles enquanto cidadãos.


Uma observação interessante pode ser apreendida quando comparamos a média geral com a média da primeira turma de formação de oficiais (CFO I). Uma análise que pode ser feita é de que a manipulação mental ainda não foi efetivada nos alunos que acabaram de entrar nesses centros de formação. Nota-se que 90% dos alunos responderam positivamente à pergunta, confirmando a alienação dos direitos que deveriam ser assistidos aos militares. Esse mesmo resultado pode ser observado na turma seguinte CFO II.


As duas perguntas seguintes, além de contradizerem-se entre si, fortificam a nossa análise anterior. Notavelmente 62% dos alunos manifestam tranqüilamente opiniões nas salas de aula e/ou nos quartéis. No entanto essa democracia parece desconfigurar-se com as respostas seguintes. Quando indagamos sobre a aceitação dessas opiniões, obtivemos um resultado constrangedor. 50% das vezes em que tal fenômeno ocorre, o aluno é exposto a uma nova e mais eficiente forma de explicação. Em outras palavras, é de se estranhar que um aluno que opina sobre alguma questão tenha que engolir uma outra explicação em lugar da sua idéia ao invés de debater e discutir. De outro modo a ridicularização e a repreensão são também grandemente presenciados com o peso de, 24% e 18%, respectivamente.


Torna-se, então, desnecessário que haja uma falsa liberdade nos quartéis e centros de formações na medida em que, em muitos casos, essa liberdade transforma-se em causas de humilhação e comprovação de um sistema autoritário e estático. Ilustrando a idéia: “Aluno, nada mudou (...) Para que mudar?”.


Para finalizar a questão objetiva que encerra a pesquisa, denota-se um aspecto degradante do sistema. 90% dos alunos já presenciaram a humilhação — física e moral — de seus colegas. Nas primeiras turmas o resultado é ainda mais assustador: 100% dos alunos pesquisados foram premiados com essa situação. Por outro lado, como a formação dada aos alunos do primeiro foi idêntica ao do terceiro, e o resultado da pesquisa aponta que 30% dos alunos não presenciaram fatos dessa natureza, então, podemos concluir que humilhação física ou moral para o terceiro ano é diferente da visão apresentada aos demais, ou pior, essa situação apresentada pode já não ser considerada humilhação. Por ter-se tornado fato corriqueiro, passou a ser situação normal. No entanto, parece que os autores desses atos possuem uma plausível explicação. Segundo algumas respostas, dentre as frases mais repetidas pelos superiores, uma merece destaque: “Quanto mais difícil o tempo na escola, menos dificuldade teremos na rua”.


Para confirmarmos nossa análise, submetemos a avaliação nossa, à outra, de um profissional qualificado, Professor Lídio de Souza, que é Coordenador do programa de Pós-Graduação em psicologia da Universidade Federal do Espírito Santo, e ele acrescenta ainda:


“Mesmo aqueles policiais (em treinamento) que possuem um conjunto de valores de respeito aos direitos e uma visão crítica do conteúdo transmitido, dificilmente escapam incólumes do sistema de punições e humilhações presentes no treinamento. Podem não assumir completamente o ideário da instituição mas se vêem forçados a agir de acordo com ele, por causa das pressões dos superiores e até de colegas de trabalho. Isso pode colaborar para a criação de sérios conflitos (intra e interpessoais) que podem comprometer a saúde mental destes policiais.” (SOUZA, Lídio. Possibilidades de interferência do tipo de formação profissional nas relações que estabelece com a comunidade. Entrevista concedida a Alcebíades Maroja e Cláudio Cunha, Vitória, 16 nov. 1999).


Mas como iniciarmos as mudanças nas relações interpessoais da Polícia Militar e mudarmos o quadro apresentado? Uma das alternativas seria a integração, trabalhada desde os Centros de Formação

Fonte: http://www.forumseguranca.org.br/artigos/a-formacao-pm-ii-tc-maroja

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